Opinião 27/09/2017 17:45

Minha​ ​polícia​ ​não​ ​tem​ ​cara​ ​de​ ​caveira

Por admin

Sem desfoque, sem mancha, sem corte. A cena é crua, direta, impactante, como chama atenção o próprio repórter da tv local.

O homem está baleado, agonizando, o matador retorna de moto e dispara vários tiros para completar o serviço.

A cena é de um celular à distância, mas conseque-se ouvir a sequência de tiros, no jornal do dia, na hora do almoço.

Quando a Globo, ou mesmo uma afiliada dela, como a Inter Tv Cabugi, mostraria um cena de morte tão direta, tão clara?

Um dia antes, a camioneta da Força Nacional passava bem devagar em frente à minha casa.

O soldado olha para mim e, por pouco, não me cumprimenta. Sinto-me seguro, posso dormir mais tranquilo naquela noite porque imagino que a polícia está por perto.

Na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, os soldados do Exército usam máscara de tecido com desenhos de caveira, e não têm a mesma reverência do integrante da Força Nacional que quase me cumprimentou.

Mas eu até entendo a necessidade de o soldado tentar impor respeito pelo medo, que ele também sente, dentro daquela nível de violência urbana que, imagino, mal conhece e não está nada preparado para enfrentá-la.

Não sei se eu me sentiria seguro com homens com desenho de caveira na cara fazendo minha segurança. Sou branco, de classe média, não moro na periferia e, como disse um comandante da PM de São Paulo, conquistei o direito de ser
tratado diferente, com menos arrogância.

Tenho uma amiga que morou numa favela no Rio de Janeiro. Para ela, o lugar mais seguro do mundo, cercado de homens de fuzil, que não permitem crimes no local.

Mas tem seus inconvenientes. Ter que esperar terminar tiroteio com a polícia, ou entre os próprios bandidos, para sair para o trabalho, ou sair correndo para esconder-se quando é pego no meio do fogo cruzado.

Um dia, um bandido, querendo passar por um simples morador, a pegou pelo braço para fingir que era seu namorado, enquanto o Caveirão da Polícia (a caveira de novo) passava.

Minha amiga ficou apavorada. Se a polícia pegasse o bandido, se não levasse uma bala perdida, ela teria muito trabalho para explicar que não pertencia ao tráfico.

Por enquanto, a polícia não me mete medo, e, embora a violência chegue cada vez mais perto da minha realidade, de forma até aterrorizante, rezo para que cenas como a do motoqueiro terminando de matar o homem, um ex-presidiário, continuem só na TV.

Augusto Fontenele

Biografia Augusto Fontenele é jornalista, escritor e fotógrafo.

Descrição O blog trata de política, economia e sociedade.

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