Sem categoria 11/09/2016 21:42

Pequena História das Canções – O Teu Cabelo Não Nega

Por admin

Lamartine Babo foi um compositor versátil. Compôs sambas-canções, marchas juninas, fox-trotes, valsas e outros gêneros mais. Mas sua fama foi construída principalmente por conta das marchinhas de carnaval. A mais famosa de todas – e, ao que se diz, a mais bem sucedida de todos os tempos – foi O Teu Cabelo Não Nega. Também foi a que lhe trouxe mais problemas, pela questão judicial envolvida.
Por volta dos anos 1920, o frevo já chamava a atenção das gravadoras, que, entretanto, não queriam gastar dinheiro levando os músicos para gravar no Rio de Janeiro. A RCA usava uma artimanha. Promovia um “concurso de frevos” e levava as partituras para serem adaptadas e gravadas no Rio de Janeiro, para desagrado dos músicos e estudiosos de Recife, que comentavam que as notas estavam todas nos lugares, mas faltava a alma, o sentimento que só músicos “criados” no frevo conseguiam dar. Uma solução, que atenuou o problema, foi a contratação do maestro Zuzinha, que foi para o Rio arranjar e ensaiar os músicos cariocas.
Em um lote, enviado em 1929, estava o frevo Mulata, dos irmãos pernambucanos Raul e João Valença. Sua letra original rezava: O teu cabelo não nega, mulata/Porque tu é mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor/Tu deste um curto circuito/Que bruito/E se queimou-se os fuzivi/Incrivi/Porque nestes teus dois quartos de fama/Mulata/Passa corrente da Trama/Nestas terras do Brasil, Aqui/Não precisa mais prantá, que dá/ Feijão, muito dotô e giribita/ Muita mulata bonita/ Tu nunca morre de fome, que os home/Te dá sapato de sarto, bem alto/Pra tu abalançá o gererê. Trama era como, popularmente, os pernambucanos chamavam a Tramways, a companhia local de energia elétrica.
Os figurões da RCA acharam que a música tinha possibilidades, mas precisava ser expurgada de regionalismos. E convocou Lamartine Babo para essa tarefa. Babo manteve a estrutura musical da primeira parte, com mínima adaptação na letra, e mudou por completo a letra da segunda parte. Uma introdução foi acrescentada (ao que parece, por Pixinguinha), o ritmo mudado para marchinha, o título alterado para O Teu Cabelo Não Nega e a metamorfose estava completa. A nova letra: O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor/Tens o sabor bem do Brasil/tens a alma cor de anil/Mulata, mulatinha, meu amor/Fui nomeado teu tenente interventor/Quem te inventou, meu pancadão/Teve uma consagração/A lua te invejando fez careta/Porque mulata tu não és deste planeta./Quando, meu bem, vieste à terra/Portugal declarou guerra./A concorrência, então, foi colossal/Vasco da Gama contra o batalhão naval.
A música foi mostrada para a dupla Jonjoca e Castro Barbosa pelo próprio Lamartine. Os dois ficaram entusiasmados para gravá-la. Mas Joncoca teve uma infeliz ideia. Como já tinham a gravação da música chamada Bandonô, do próprio Jonjoca, agendada, ele propôs que gravassem as musicas individualmente. Fizeram um sorteio e coube à Castro Barbosa gravar O Teu Cabelo Não Nega, acompanhado pelo Grupo da Guarda Velha.
A música foi lançada para o carnaval de 1932 e o sucesso foi arrasador, rapidamente se disseminando por todo o Brasil. Tão grande sucesso inevitavelmente chegou aos ouvidos dos desprevenidos, mas não surdos, Irmãos Valença, que pegaram o disco e foram conferir o rótulo. Lá, estava escrito: Motivo do Norte. Adaptação – Lamartine Babo.

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Ao que parece, a iniciativa foi dos executivos da gravadora, sem o conhecimento de Lamartine Babo. Para os Irmãos Valença, não interessava de quem era o erro. O que importava é que a criação deles estava tocando no país todo e rendendo dinheiro para várias pessoas, mas nada para eles.
A RCA, espertamente, quis contemporizar. Fez Carlos Galhardo, um dos melhores cantores do selo, gravar dois frevos dos Irmãos Valença, à guisa de compensação. Não adiantou. Os Irmãos Valença entraram com um processo reivindicando direitos autorais e ganharam em todas as instâncias. Mas, sabiamente, concordaram em manter as modificações feitas por Lamartine Babo, admitindo que, de fato, a música era melhor com as alterações. Os rótulos dos discos passaram a registrar como autores: Irmão Valença e Lamartine Babo.
Mesmo sem ter razão, Lamartine ficou chateado com o processo. E como para ele qualquer coisa podia servir de inspiração musical, compôs outra marchinha, em 1934, referindo-se ao processo Judicial. A marchinha foi batizada como A Melhor das Três. Apesar do nome, não está entre os melhores trabalhos dele e terminou quase esquecida. A letra: Amei a mulatinha, amei a moreninha/Em trinta e dois e trinta e três/A loura namorei um mês/Agora, agora, eu fico com a melhor das três. /Só porque o cabelo não negava/Toda gente só falava na mulata original/E a mulata foi para o Supremo Tribunal, foi ver seu pai e de lá não sai. / Em seguida veio a moreninha/que afinal foi a rainha com o cabelo regular/E por precaução o pai tratou de colocar/Uma estampilha no nariz da filha. /No terceiro ano em disparada/Veio a loura enciumada ser rainha da canção/Ela disse logo para evitar a confusão/Meu pai morreu e minha mãe sou eu.

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Em nossa época “politicamente correta” O Teu Cabelo Não Nega acumula uma nova acusação. A de ser racista. E não podemos deixar de concordar com a acusação. É difícil encontrar um verso com mais conotação racista do que mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor. Como Lamartine Babo é o nome mais conhecido na história desta canção a acusação de racista naturalmente respinga nele. Mas seria Lamartine realmente racista? E a música, que foi cantada por milhões de brancos e pretos, que nem perceberam o racismo implícito, deve ter a sua execução proibida? Um bom assunto para ser desenvolvido em breve.

Djacir Dantas

Biografia Médico neurologista, que tem, desde a adolescência, a música como hobby.

Descrição O blog tem por finalidade abordar assuntos variados ligados à música, tais como episódios marcantes da vida de compositores ou músicos, fatos que originaram músicas específicas e outros.

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