Sem categoria 25/09/2016 22:12

Melody Gardot, a Cantora Acidental

Por Djacir Dantas

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Até os 19 anos, Melody Gardot nunca pensara em ser cantora profissional. Era uma estudante de moda, na Filadélfia, quando um acidente transformou a sua vida. Enquanto pedalava sua bicicleta, Melody foi atropelada por um motorista que avançou um sinal e fugiu do local, abandonando-a como morta.
Melody sobreviveu por pouco. Internada com múltiplas contusões cerebrais e fraturas na pelve e na coluna vertebral, ficou onze meses internada. Os problemas neurológicos eram graves. A memória recente foi comprometida. Melody esquecia fatos ocorridos minutos antes. Ao mesmo tempo, sofria de afasia. A afasia é um comprometimento da linguagem, que pode afetar tanto a compreensão (a pessoa não entende o que ouve) ou a expressão (não consegue dizer o que pretende).
A combinação da afasia com o comprometimento da memória era catastrófica, do ponto de vista funcional. Além disso, lesões neurológicas adicionais, provocadas pelas fraturas da coluna causavam dores fortes e persistentes e limitação dos movimentos.
Melody afirma que o comprometimento da memória tinha o seu lado favorável. Como as memórias não duravam, o longo tempo de recuperação não lhe pesou nos primeiros meses, porque simplesmente ela não se lembrava, e assim não ficava angustiada nem antecipava o sofrimento.
Um médico sugeriu que Melody usasse a música como método terapêutico. Havia um problema importante. As contusões cerebrais também tornaram o seu cérebro muito sensível a estímulos, como a luz e o som. Melody não conseguia mais ouvir artistas de que antes gostava, como The Mamas & The Papas, porque não suportava a altura das músicas.
Foi quando um amigo lhe deu as gravações de Stan Getz na sua fase bossanovista. Melody ainda sentia incômodo com o saxofone de Getz, que às vezes achava áspero, mas se deliciou com a suavidade das vozes de João Gilberto e de Astrud Gilberto. Melody ouvia constantemente esses discos.
Mas a recuperação da linguagem e da memória seguia a passos lentos. Seu médico, informado de que, na infância e adolescência, Melody estudara piano, sugeriu que ela voltasse a tocar um instrumento.
O piano seria um instrumento muito difícil de lidar, face às limitações físicas que ela apresentava. Sendo assim, Melody adotou o violão, que ela podia dedilhar sem sair da cama. Os progressos logo ficaram evidentes. A coordenação dos movimentos, a articulação das ideias, a recuperação da memória iam ocorrendo na medida em que Melody ia procurando tocar e, pouco depois, a compor canções.
No início, Melody apenas solfejava algumas frases melódicas que improvisava, mas logo depois já começava a estruturar melodias mais complexas e a escrever letras para essas músicas. O gosto musical de Melody também tinha sofrido transformações. Antes da doença ela era fundamentalmente ligada à vertente pop. Agora, as músicas que compunha deviam muito mais ao jazz e ao blues, refletindo o que ela andava ouvindo.
Melody gravou um EP, mais como parte da terapia, a que chamou de Some Lessons: The Bedroom Sessions. Um amigo, sem seu conhecimento, levou as gravações para uma rádio da Filadélfia e as fitas começaram a ser tocadas, despertando comentários favoráveis.
Isso ajudou Melody a se convencer que tinha um futuro na música, e a encarar com seriedade os novos desafios. E seus desafios não eram pequenos. A sensibilidade à luz e aos sons continuava. Melody necessitava do uso contínuo de óculos escuros, que ainda usa a maior parte do tempo. Usava também um dispositivo para atenuar os sons, um TENS (um dispositivo de estimulação elétrica transcutânea) para aliviar a dor e uma bengala.
Uma cadeira especial, para ajudar a suportar as dores, era outro pré-requisito. Mas logo descobriu que a excitação e a emoção de estar em um palco, em frente a uma plateia, é um excelente analgésico. Nesses momentos, diz, a dor passa a ser mínima.
Em 2009 lançou o seu primeiro CD como profissional. O disco, My One and Only Thrill, com três indicações para o Grammy, recebeu ótima acolhida pela crítica, que logo a comparou à Laura Nyro, Madeleine Peyroux, Joni Mitchell, Eva Cassidy e Shania Twain.
Mas Melody não estava ali para ficar repetindo uma fórmula, mesmo que de sucesso. Seu disco seguinte, The Adsense (2012), produzido pelo brasileiro Heitor Pereira, ex-guitarrista do Simply Red, já incorporava influências latinas, principalmente brasileiras, mas também argentinas e portuguesas. A admiração dela pela música brasileira, tão importante na recuperação da cantora, persiste, e a trouxe ao Brasil, donde a inspiração para muitas das músicas.
Mas Melody permanece uma pessoa inquieta. O que se reflete no disco Currency of Man (2015), onde as músicas refletem um grau maior de preocupações sociais e deixam em segundo plano a cantora intimista. Parece que um progresso na sua condição física está se refletindo na sua música e na sua performance no palco.
Melody já ousa entrar no palco sem a bengala que usou tanto tempo e sem a cadeira especial. E o uso de músicas com andamento mais rápido e com naipe de metais pode indicar que o desconforto provocado por sons altos diminuiu. E a própria personalidade da cantora parece apontar para isso, que diz apreciar quando as pessoas dançam nos seus shows.
Enquanto os críticos apontavam para suas semelhanças com Madeleine Peyroux e Eva Cassidy, Melody aponta como artistas que admira nomes como Esperanza Spalding, Erykah Badu, Lianne de Haras e Hiromi Uehara, ou seja, nomes ligados às mudanças, não ao jazz mais tradicional.
Melody também patrocina uma instituição chamada Chateau Gardot, que, em sociedade com a Swedish Postcode Lottery, dedica-se a promover à musicoterapia, a que ela atribui papel fundamental na sua recuperação.
Melody Gardot é, hoje em dia, um nome estabelecido no jazz mundial. Mesmo com todas as limitações que a sorte lhe trouxe, vive a vida nômade comum a tantos artistas, ao ponto de dizer que não endereço fixo. E é uma prova viva de que a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se recuperar, pode, às vezes, ser muito surpreendente.

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Melody Gardot – Baby I`m a Fool (2009) – Música que abre o disco de estreia

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Melody Gardot – Mira (2012) – Influência da música brasileira

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Melody Gardot – Preacherrman (2015) – Suportando melhor os decibéis ?

 

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Djacir Dantas

Biografia Médico neurologista, que tem, desde a adolescência, a música como hobby.

Descrição O blog tem por finalidade abordar assuntos variados ligados à música, tais como episódios marcantes da vida de compositores ou músicos, fatos que originaram músicas específicas e outros.

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