Sem categoria 20/11/2016 17:53

Pequenas Histórias das Canções – Coração de Estudante

Por Djacir Dantas

Compartilhar } 1 Compartilhamentos

Foi no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro. Estudantes protestavam, reclamando da má qualidade da comida servida no Calabouço, um restaurante subsidiado pelo governo. A polícia chegou para conter a manifestação. Algumas pedras foram atiradas na direção dos policiais. Um disparo de fuzil foi a resposta. Em um átimo, a bala matou Edson Luis de Lima Souto, um obscuro estudante secundarista e, ao mesmo tempo, criou um personagem que entrou para a história, ainda que involuntariamente.
Edson Luis era um adolescente de 16 anos, sem militância política, que fazia refeições no Calabouço por necessidade, como quase todos os demais. Elio Gaspari, que fez refeições lá entre 1960 e 1962, escreveu que a comida era tão ruim que nem ao mais devotado militante seria exigido a sacrifício de ter que fazer suas refeições lá apenas com fins de proselitismo.
Os estudantes se apoderaram do corpo de Edson Luis e, erguendo-o sobre as cabeças, o transportaram para a Assembleia Legislativa, não muito longe do Calabouço, enquanto outro agitava sua camisa ensanguentada como se fosse uma bandeira. A notícia do assassinato de Edson rapidamente comoveu o país, principalmente o Rio de Janeiro.
No seu sepultamento, no dia seguinte, entre a sede da Assembleia Legislativa e o cemitério São João Batista, aglomeraram-se cinquenta mil pessoas. As manifestações públicas eram proibidas, mas não missas de sétimo-dia. Só na jurisdição do Iº Exército, cuja sede era o Rio de Janeiro, mais de 119 missas foram programadas. A maior delas na Candelária, celebrada pelo bispo auxiliar, coadjuvado por quinze padres.
Dentro da igreja, uma multidão. Do lado da fora, soldados da cavalaria. Os fiéis tiveram que sair por uma pequena porta, em fila indiana, protegidos por uma barricada formada por sacerdotes de mãos dadas. Em 1968, a repressão seguia numa ascendente.
A morte de Edson Luis também tocou Milton Nascimento e o pessoal do Clube da Esquina. Milton e Ronaldo Bastos compuseram a música Menino, movidos pela tragédia. Quem cala sobre o seu corpo / Consente na sua morte / Talhada a ferro e fogo / Na profundeza do corte / Que a bala riscou no peito / Quem cala morre contigo / Mais morto que estás agora / Relógio no chão da praça / Batendo, avisando a hora / Que a raiva traçou no tempo / No incêndio repetido / O brilho do teu cabelo / Quem grita vive contigo.

[embedyt] http://www.youtube.com/watch?v=Eq7tu4NvyE0[/embedyt]
A música, composta em 1968, só foi gravada em 1976. Márcio Borges, no livro Os Sonhos Não Envelhecem, explica que a música era cantada entre eles, do Clube da Esquina, mas que ninguém se animava a gravá-la, para não parecer oportunista. Quando Milton, e depois Elis Regina, a gravaram, já ninguém correlacionou a música com a morte de Edson Luís.
Corte para 1981. Sílvio Tendler planeja um documentário sobre João Goulart e pede a Milton Nascimento músicas que possa usar no filme. Milton manda Tema de Che e San Vicente. O documentário vai ganhando corpo lentamente. Nessa época, os movimentos de resistência armada estavam desbaratados e os atos violentos eram mais raros. Mas ainda vivíamos a ditadura, e Jango era um assunto incômodo. As fontes oficiais de financiamento estavam fechadas para Tendler.
Quando, finalmente, o copião ficou pronto, Tendler o exibiu para Wagner Tiso, amigo de infância de Milton Nascimento. Foi uma longa sessão, de quase cinco horas. Finda a exibição, Tendler pediu a Tiso que compusesse alguns temas originais. Tiso aceitou a incumbência e compôs três peças: Tema de Jango, Valsa da Central e Samba de Brasília. O Tema de Jango tocava em passagens centrais do filme, como o enterro de Getúlio Vargas (de quem Jango era ministro da Justiça), na fuga do ex-presidente para o exterior e, finalmente, no enterro do próprio Jango.
O filme foi inscrito no Festival de Gramado de 1984, mas havia o receio de a censura proibi-lo. Tendler foi aconselhado a fazer uma pré-estreia para profissionais da imprensa, que gerasse notícias e dificultasse uma posterior censura. A estratégia deu certo. O filme foi um sucesso em Gramado e Milton e Tiso abocanharam o Kikiko de melhor trilha sonora.
Foi na pré-estreia que Milton ouviu pela primeira vez os temas instrumentais que Tiso fizera para o filme. Empolgou-se com dois e decidiu por letras neles. Foi assim que o Tema de Jango virou Coração de Estudante e a Valsa da Central se tornou Um Caso de Amor.
Por algum motivo, a tragédia de Edson Luís veio de novo à mente de Milton Nascimento e as imagens do enterro serviram de ponto de partida para a letra de Coração de Estudante. Mas, como explicou Wagner Tiso, a canção foi composta em tom maior. Tons maiores são usados em temas alegres, de celebração. Os tons menores são usados quando se quer passar sentimentos de tristeza, de melancolia.
Wagner havia escolhido um tom maior, mesmo usando a música em cenas tristes do documentário Jango, porque quis transmitir um sentimento de esperança. O que terminou sendo decisivo. Pois enquanto música e a letra de Menino expressam um lamento, a de Coração de Estudante é um hino à esperança de dias melhores.
Pouco tempo depois de ser lançada, a versão com a letra de Milton Nascimento tornou-se um hino do movimento das Diretas Já, sendo cantada pelas multidões nos comícios. A emenda pelas eleições diretas para presidente foi derrotada. Mas a ditadura já estava com seus dias contados. No colégio eleitoral, Tancredo Neves, o candidato da oposição, derrotou Paulo Maluf, apoiado pelos militares.
Uma trapaça do destino fez com que Tancredo adoecesse gravemente na véspera de sua posse e falecesse no dia 21 de abril, uma data simbólica. Coração de Estudante era uma das músicas favoritas de Tancredo. Durante o seu velório, em Brasília, e depois no seu traslado, até São João Del-Rey, as redes de televisão usaram versões instrumentais de Coração de Estudante como música de fundo. Como depois comentou Wagner Tiso, a música foi ouvida no funeral de três presidentes: Getúlio Vargas e João Goulart, no documentário de Silvio Tendler, e, via redes de televisão, no de Tancredo Neves.

[embedyt] http://www.youtube.com/watch?v=n928bU-QjJc[/embedyt]

 

Compartilhar } 1 Compartilhamentos
Djacir Dantas

Biografia Médico neurologista, que tem, desde a adolescência, a música como hobby.

Descrição O blog tem por finalidade abordar assuntos variados ligados à música, tais como episódios marcantes da vida de compositores ou músicos, fatos que originaram músicas específicas e outros.

(84) 999 882 247

todos os blogs

tags

mais lidas