Sem categoria 28/11/2016 00:03

Pequenas Histórias das Canções – Canção da América

Por Djacir Dantas

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Milton Nascimento tem uma das mais belas vozes do Brasil, embora já seja claro o desgaste do tempo. A voz do Milton Nascimento jovem foi, na minha opinião, a mais bonita de todas as vozes brasileiras. Entretanto, mesmo com essa voz excepcional, o cantor nunca teve uma aceitação popular correspondente.
É que a música de Milton nunca teve um apelo fácil. Ele não tem nenhuma A Banda, nenhuma Alegria, Alegria, nenhuma música reconhecível e cantada aos primeiros acordes. A sua música é requintada, nem sempre se revelando à primeira audição. Por outro lado, recompensa com juros quando alguém lhe dá a atenção e a dedicação de que necessita.
Por ter uma voz tão bonita, Milton logo mereceu que discos seus fossem lançados nos Estados Unidos. Um crítico americano escreveu que não era preciso se conhecer uma única palavra em português para se emocionar com a música de Milton. Mas lá, como cá, não se tornou um cantor das multidões, mesmo com algumas canções sendo vertidas para o inglês.
Até no seu período de maior sucesso, entre o surgimento com Travessia, em 1967 e o Clube da Esquina 2, em 1978, Milton era um artista do grupo “que dão prestígio”, como os donos ou gerentes das gravadoras classificavam. Isso queria dizer artistas que as gravadoras contratavam por conta da aura de qualidade que os cercavam, mas que não eram grandes vendedores.
Tanto é que, em 1975, Milton Nascimento precisou da ajuda dos amigos Caetano Veloso e Chico Buarque para sair de uma enrascada financeira. Enganado por seu empresário, que se apropriou do seu dinheiro, Milton Nascimento se viu em dificuldades para pagar as prestações de um apartamento que tinha comprado.
Maurício Tapajós, diretor da Sombras, uma organização para defesa dos direitos dos músicos, coordenou um show no Canecão que recebeu o título Milton Buarque Veloso. O show foi um grande sucesso. Na ocasião, Tapajós declarou que a Sombras “saberia dar um destino justo ao dinheiro.” O destino justo foi justamente a quitação do apartamento de Milton, sendo que Chico Buarque e Caetano Veloso abriram mão de qualquer cachê.
Interessante é que mesmo sem ser um artista de grande apelo popular, Milton Nascimento tem duas canções que se tornaram icônicas. Uma delas é Coração de Estudante, que foi nosso assunto na semana passada. A outra é Canção da América.
A base de Milton, quando nos Estados Unidos, era Los Angeles. Foi lá que ele travou conhecimento com Ricky Fataar, um baterista da África do Sul. Ficaram amigos, e Ricky muitas vezes saiu com Milton pela cidade. Um comentário recorrente entre eles era como a cidade de Los Angeles, dominada pelos carros, dificultava o contacto entre as pessoas e como, principalmente na profissão deles, amizades e separações ocorriam, no vaivém dos compromissos profissionais. Ricky cantou para Milton uma canção que falava sobre essas amizades e separações
Quando Milton voltou, em 1979, à Los Angeles, procurou seu amigo Ricky e foi informado de que ele não estava mais por lá. Decepcionado, escreveu uma música, com letra em inglês, a que batizou de Unencounter, uma palavra que não existe em inglês, mas cujo sentido podia ser facilmente inferido, como desencontro. A música foi lançada no disco Journey to Dawn, lançado naquele mesmo ano no mercado americano. A repercussão do disco foi pequena. O crítico musical Richard Ginell elogiou o disco, mas destacou que o disco “era muito exótico para o público americano em uma época dominada pela dance-music”.
A letra em inglês diz: Por que você também deixou esta cidade, meu amigo? Você se lembra daquela canção? A canção que você cantou para mim, perguntando pelos amigos que foram embora? Você não viu, mas eu chorei, porque era a minha hora de ir. Você estava tão triste e eu não sabia o que fazer, exceto ir com uma canção. Você se lembra daquela canção, meu amigo? Eu me lembro de você dizendo talvez essas pessoas estejam procurando pelo seu lugar. Talvez o tempo não seja agora, mas você não entenderia, porque agora era o seu tempo de ficar. Mas tudo sempre continua. Agora você deixou a cidade e eu estou aqui, procurando você.
O grupo 14 Bis quis gravar a música. Fernando Brant, parceiro de longa data de Milton, fez a letra em português. Brant manteve-se fiel à ideia original de Milton, daí o título Canção da América, que parece sem sentido para muita gente. Mas, enquanto a letra original de Milton é específica, praticamente descritiva de uma ocasião, a letra de Brant parte desse ponto (Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, assim falava a canção que na América ouvi), para se tornar uma ode à amizade de um modo amplo.
Depois do 14 Bis, a música foi gravada pelo próprio Milton Nascimento (álbum Sentinela – 1980), Elis Regina (Saudades do Brasil – 1980). Pouco a pouco, a celebração da amizade da letra de Fernando Brant foi despertando a atenção das pessoas, e a canção virou uma favorita em ocasiões como festas de formatura, onde pessoas que conviveram durante alguns anos vão tomar novos rumos em suas vidas, particularmente através do verso Pois seja o que vier, venha o que vier / Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar/ Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.
A música era a favorita de Ayrton Senna, que foi amigo de Milton Nascimento. Milton ganhou, de presente, um dos capacetes de Senna. Foi por isso que a música foi executada pelas emissoras de televisão na cobertura do funeral do corredor e usada na trilha sonora de um documentário sobre Ayrton Senna.

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Djacir Dantas

Biografia Médico neurologista, que tem, desde a adolescência, a música como hobby.

Descrição O blog tem por finalidade abordar assuntos variados ligados à música, tais como episódios marcantes da vida de compositores ou músicos, fatos que originaram músicas específicas e outros.

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