Sem categoria 28/12/2016 21:17

A democracia e a trajetória dos bêbados

Por Carlos Linneu

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Primeiro, ocorre como tragédia. Depois, na repetição, como farsa. A intervenção militar de 1964 não se configurou exatamente como uma tragédia, mas uma segunda, resultaria em uma grande farsa.

Têm sido crescentes o surgimento de movimentos organizados, defendendo a intervenção militar no sistema político brasileiro. Mas a pergunta surge de forma natural: quem desocuparia a ocupação? Quem faria o creme dental retornar ao tubo? Ou os leões à jaula? A melhor opção é a de que os militares brasileiros permaneçam nos quartéis.

Parte dos gravíssimos problemas institucionais que vivemos hoje decorreram da fratura da ordem constitucional ocorrida em 1964. Sob certos aspectos, o movimento militar de 64 trouxe inúmeros benefícios ao país. A infraestrutura econômica, por exemplo, foi modernizada pelas mãos de uma competente tecnoburocracia que ocupou o aparelho estatal. De outro lado, entretanto, o desenvolvimento político foi retardado. Foi destruído um tecido de representação política lenta e penosamente construído ao longo de décadas.

Haviam poucos partidos, o bastante, por outro lado, para densificar o espectro político. Eram solidamente ancorados nas correntes ideológicas presentes nos movimentos civis. O estamento militar, pouco afeito aos conflitos inerentes à convivência democrática, desbaratou o sistema partidário de então, com a edição do Ato Institucional 2. Autocraticamente, impôs a sua própria concepção de organização político-partidária. Sacudiu no colo do país duas monstruosidades – a Arena e o MDB -, descoladas das correntes de pensamento presentes na sociedade brasileira. Os resultados são conhecidos.

O recrudescimento militar, agora, além de não se constituir em garantias de soluções, implicaria em outro indesejável recuo no processo de amadurecimento das instituições democráticas. A bem da verdade, esfacelaria um tecido político apodrecido e rejeitado. Há de se convir, contudo, que o manejo da crise do momento comporta pedagogias de aprendizagem e saudável será atravessá-la na moldura do regime democrático. A construção da democracia é um processo de características próprias, lento e sinuoso. Igual à trajetória dos bêbados, que apesar de tudo, encontram o destino.

Nossos militares já estão suficientemente ocupados com o exercício de competências conferidas pela Constituição. A absorção de tarefas inesperadas para as quais não estão intrinsecamente talhados dispersaria sua missão constitucional, que não abrange somente a proteção das fronteiras, na ótica dos modelos clássicos e ultrapassados de guerra. O poder militar contemporâneo advém sobretudo do domínio de tecnologias de aplicação bélica e o seu desenvolvimento é outra atribuição das forças armadas. Não é possível ignorar-se, por exemplo, a cobiça que a Amazônia e o seu extraordinário e desconhecido potencial de recursos materiais desperta nas superpotências desde os anos 60. Permitir-se que os militares brasileiros dividam a preparação estratégica para as contingências das décadas vindouras, com a gestão do Estado, às quais estão subordinados, representaria riscos para a integridade do território brasileiro.

A maior riqueza do planeta daqui a uns 30 anos será a água doce, 30% concentrada na bacia amazônica. As fontes de água estão se exaurindo. Nos anos 60, a Rand Corporation elaborou um projeto de grandes lagos para a Amazônia. No contexto de uma crise hídrica mundial, bastará uma resolução da ONU autorizando uma invasão “em nome da Humanidade”, como ocorreu no Iraque.

É nessa dimensão estratégica que se inserem as forças armadas brasileiras. Dentro dos quartéis, desenvolvendo tecnologias e sistemas de operacionalidade militar. Faz-se urgente a nuclearização do país e o domínio da tecnologia de mísseis. Nossos foguetes estão explodindo nas plataformas de lançamento. Política é atividade para políticos, em nome da soberania popular.

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Carlos Linneu

Biografia Nasceu em Caicó e estudou em São Carlos. Leitor de jornais, a grande universidade.

Descrição Blog opinativo de temas políticos e econômicos, baseado em leituras de jornais e revistas.

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