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Política

Em Natal

Jornalista denuncia que foi hostilizada por deputado ao dizer que não vota em Bolsonaro

Deputado nega agressões verbais, mas admite que disse à jornalista que ela deveria votar em quem o presidente da AL apoiar ou entregar o cargo de confiança que ocupa na Casa.

Por Ilana Albuquerque

15 de outubro de 2018 | 12:37

Jornalista Juliana Celli publicou relato, nesta segunda(15). Leia a íntegra abaixo.

Nesta segunda(15), veio a público um relato da jornalista Juliana Celli, que integra o quadro da assessoria de comunicação da Assembleia Legislativa, sobre um diálogo ocorrido na última quinta-feira (11), dentro daquela casa parlamentar, entre ela e o deputado estadual Getúlio Rêgo (DEM).

Em postagem em uma rede social e em grupos de imprensa no Whatsapp (veja a íntegra do texto abaixo), a jornalista diz que foi constrangida e hostilizada pelo deputado ao ser questionada sobre o voto dela para presidente. Segundo ela, ao responder que anularia o voto por não concordar com propostas e ideologias de nenhum dos candidatos, o deputado Getúlio Rêgo a teria agredido verbalmente e dito que ela “deveria votar em quem o chefe mandasse” ou “pedir exoneração do cargo (de confiança)”.

A jornalista diz ainda que pensou em não trazer o fato a público, mas que decidiu fazê-lo em nome do “voto livre” e do “não à intolerância política”.

Ao tomar conhecimento do fato, o Sindicato dos Jornalistas do RN emitiu uma nota (veja íntegra da nota abaixo) repudiando “veementemente atos como o praticado pelo deputado estadual Getúlio Rêgo contra a jornalista Juliana Celli, no interior da Assembleia Legislativa, durante o expediente de trabalho”.

Em entrevista ao portalnoar.com.br, o deputado estadual Getúlio Rêgo disse estar surpreso com a versão publicada pela jornalista; afirmou que são “inverdades”; negou que a tenha chamado de “mentirosa” ou “corrupta”; alegou que não é e nunca foi superior dela ela na Assembleia Legislativa, visto que a jornalista nunca foi ligada ao gabinete dele, e classificou toda a conversa como uma “brincadeira” com a jornalista, com a qual até então sempre se deu muito bem, nas palavras de ambos.

O deputado atribuiu as declarações da jornalista à “instabilidade emocional”, mas admitiu que disse a ela, na presença de testemunhas, que “eticamente, se ela discorda e não vota em um candidato apoiado pelo presidente da Assembleia, deveria entregar o cargo de confiança que ocupa”. Getulio Rêgo adiantou ainda que irá se pronunciar sobre o caso durante a sessão desta terça(16),  na tribuna da Assembleia Legislativa.

 

Veja a íntegra do relato da jornalista Juliana Celli

 

“Como jornalista, talvez esse seja o texto mais difícil que já escrevi. Olhos cheios de lágrimas, coração apertado, dúvidas sobre o que pode acontecer comigo a partir de agora. Mas muita vontade de dar a minha contribuição de viver num mundo melhor, pra mim e pra minha filha. Decidi não me calar.

Na última quinta-feira (11/10) eu fui vítima da intolerância política que estamos testemunhando no país e que chegou no seu mais grave momento com a chegada do segundo turno das eleições.

Eu já noticiei tanto sobre esses casos que estão acontecendo. O último, o de uma médica, no serviço público do Rio Grande do Norte, que rasgou uma receita porque ao perguntar em que candidato o paciente votaria, ele afirmou votar no candidato do PT. Fiquei indignada!

Mas, jamais pensei passar por isso. Estava enganada!

Na quinta-feira pela manhã eu estava trabalhando quando um superior fez o sinal usado pelo candidato Bolsonaro, aquele que simula duas armas. Ele me perguntou se eu estava pronta pra fazer o tal gesto. Eu falei que não faria porque não voto nesse candidato, na verdade decidi não votar em nenhum dos dois candidatos postos por não concordar nem com um nem com o outro. Foi aí a minha supresa, o superior, o deputado estadual Getúlio Rêgo, que até então sempre tive uma boa convivência, começou a me insultar. Ouvi palavras como corrupta, mentirosa, e que eu deveria pedir exoneração do meu cargo (de confiança). Ele estava completamente alterado, falando alto, gesticulando em minha direção. Por um momento, pensei em explodir, me contive. Consegui me manter firme e respeitosa, mesmo que muito constrangida, principalmente pelo fato de na hora estar conduzindo convidados para uma reunião de trabalho. Argumentei que o voto é livre, e eu podia votar em quem quisesse ou até mesmo me omitir. Ele continuou esbravejando, na frente deles e de mais alguns servidores, que eu deveria votar em quem meu chefe mandasse. Eu voltei a argumentar que não estávamos mais no tempo de “votos de cabrestos”, algo muito utilizado nos “currais” eleitorais e que meu chefe direto é democrático, jamais iria me obrigar a votar em quem eu não quisesse.

Ele continuou sem respeitar a minha decisão. Se alterou ainda mais, falando em tom ameaçador. Eu decidi encerrar o assunto entrando na sala para participar da reunião que estava programada. Pedi desculpas aos convidados pelo ocorrido, mantive a calma para terminar aquela demanda, mas depois desabei. Conversei com colegas, ouvi familiares, procurei um advogado.

Algumas pessoas disseram que seria meu fim eu expor esse assunto, outras me apoiaram, me incentivaram. Passei alguns dias analisando sozinha, pedindo a Deus uma resposta, deixando a “poeira” baixar e a emoção ser controlada para aí sim tomar uma decisão mais acertada.

Se eu, jornalista, assessora de imprensa, apresentadora de um jornal na rádio, de um programa de TV, não pode falar, quem pode?

As milhares de mulheres e homens que estão passando por isso em seus empregos em todo país ou em outros locais?

Não. Eu digo não à intolerância política!!!

O voto é livre!!! Se você vota num candidato que eu tenho repulsa eu preciso respeitar.

Não deixe ninguém lhe dizer que você é menos inteligente ou menos cidadão por isso.

Se você quer votar em Haddad, vote livremente. Se você vota em Bolsonaro, vote livremente. Se quiser votar em branco, nulo, vote livremente.

Em tempos de #elenão e #elesim eu o convido a levantar uma bandeira muito mais importante, a da tolerância. Essa é a minha campanha. #intoleranciaNao #toleranciasim”

 

Veja a íntegra da nota do Sindicato dos Jornalistas do RN

“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte vem a público repudiar os atos de intolerância e autoritarismo cometidos em todo o País, à medida que se aproxima o dia da votação do segundo turno da campanha eleitoral à Presidência. Práticas totalitárias, violentas e preconceituosas, têm manchado a história da nossa democracia e colocado a vida de muitos em risco, inclusive dos colegas que fazem a imprensa norte-riograndense.

Repudiamos veementemente atos como o praticado pelo deputado estadual Getúlio Rêgo contra a colega jornalista Juliana Celli, no interior da Assembleia Legislativa, durante o expediente de trabalho. Tais atos foram relatados por ela em suas redes sociais nesta segunda-feira (15). Por anunciar um voto contrário ao do deputado, numa conversa corriqueira, a jornalista teve seu direito à livre opinião abafado pelo discurso autoritário do parlamentar, que passou a agredí-la verbalmente, na presença de diversas pessoas, numa clara prática de assédio moral e constrangimento profissional.
Num processo democrático, atitudes como a do parlamentar colocam em risco direitos constitucionalmente garantidos como a liberdade de opinião e de expressão, e revela o perigo que nos cerca.

O Sindjorn estará sempre na trincheira da democracia, base de nascimento de todas as conquistas sociais que temos hoje. Nos solidarizamos com a colega Juliana Celli, colocando os setores do Sindjorn à disposição para o acompanhamento do caso.

SINDJORN”

 

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