câmbio:

DÓLAR R$ 3.6784 EURO R$ 4.3424

Tempo, natal:

26°C

artigo

09/12/2017

00:16

No país dos Odebrecht, Silva não tem vez

Por Antônio Melo

Jornalista

Os Silva, o cidadão comum, não têm vez. Para essa constatação, basta um olhadinha diária nos jornais. As notícias –as principais, pelo menos- não nos deixam fugir da realidade.

A famosa “Operação Lava Jato” que levou ao estrelato o juiz Sérgio Moro tem, sim, suas virtudes. Mas, compensa-se com exageros, arbitrariedades e penas que são verdadeiros prêmios a criminosos.

E por quê?

De todos os supostos bandidos presos nas espetaculosas operações, para mim o maior de todos foi e é Marcelo Odebrecht. Frio e calculista, o executivo parido numa família que transformou uma empresa regional e familiar -abençoada pela força, o compadrio e a cumplicidade dos anos de chumbo e seus ditadores- em uma multinacional poderosa. E isso, claro, nos dava até um certo orgulho.

A Odebrecht, até então apontada como sinônimo do capitalismo que premia os empreendedores era, na verdade, uma organização criminosa que comprava autoridades, funcionários públicos, políticos. Não só no Brasil, mas mundo à fora. E Marcelo, o laureado e bajulado empresário, era na verdade o comandante de todas as operações criminosas do grupo.

Foi o próprio capo quem definiu o seu papel à frente da rede de subornos que se espalhou por quase todos os continentes, lançando tentáculos até nos Estados Unidos. E onde ia Marcelo ia a corrupção e seu exército de corruptores. Nas concorrências de que participava, o valor, não representava o orçamento da obra. Mas sim, o da propina a ser paga.

Foi subornando dezenas de políticos no Brasil e no exterior que a empresa crescia. Em contrapartida, ganhou bilhões e bilhões de reais, de dólares e euros.

De temperamento difícil, mesmo na cadeia Marcelo brigou e rompeu com a mãe a quem era muito ligado, com a irmã Mônica, com o cunhado Maurício Ferro um dos diretores do grupo, com Adriano Maia então diretor jurídico da empresa. Com o pai, Emílio, já havia rompido antes mesmo de ser preso, em 2015.

Agora, o rei da corrupção vai ser solto. Não importa que tenha subornado meio mundo, quebrado ou levado a sérias dificuldades grandes empresas, comprado o congresso nacional para aprovar medidas provisórias e leis do seu interesse. Não importa. Marcelo não é Silva.

O capo será solto dia 19, dois anos e meio depois de ser preso. A esposa já mandou reformar a casa preparando o escritório de onde ele irá comandar, mesmo que seja informalmente, os seus negócios. Um jatinho particular, de propriedade da empresa que agasalhou a mais notória organização criminosa do Brasil, deverá ir busca-lo.

E nós, como ficamos?

Bem, ficamos assim: Marcelo Odebrecht, condenado pelo implacável Sergio Moro, vai pra casa de tornozeleira por outros dois anos e meio.

Romeia Pereira da Silva, da Vila Planalto, no Distrito Federal, velha conhecida da polícia, foi condenada a 34 anos por ter em sua loja nove toca-discos roubados, que ela não soube dizer como adquiriu. Está cumprindo a pena já a seis anos.

Kelly Gomes da Silva, manicure em Brazlândia, periferia de São Paulo, outra reincidente, roubou quatro pacotes de fraldas. Ela também é reincidente em filhos, cinco. Foi condenada a sete anos e meio de cadeia. Já cumpriu dois. E ninguém fala em redução de pena, prisão domiciliar, ou progressão de regime.

No país dos Odebrecht, depois da lava jato, todos são iguais perante a lei. Mas tem uns que são mais iguais que os outros iguais: os Odebrecht, não importa que sobrenome tenham, desde que não seja Silva, cidadão comum.

recomendamos

comentários

Ao comentar, o leitor concorda com nossas regras e política de privacidade. Veja aqui

O espaço de comentários do Portal no AR pode ser moderado. Não serão aceitas as seguintes mensagens:

1. que violem qualquer norma vigente no Brasil, seja municipal, estadual ou federal;
2. com conteúdo calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade, ou que desrespeite a privacidade alheia;
3. com conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas;
4. com linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica;
5. de cunho comercial e/ou pertencentes a correntes ou pirâmides de qualquer espécie;
6. que caracterizem prática de spam;
7. anônimas ou assinadas com e-mail falso;
8. fora do contexto do portal.

O Portal no AR:

1. não se responsabiliza pelos comentários dos frequentadores do blog;
2. se reserva o direito de, a qualquer tempo e a seu exclusivo critério, retirar qualquer mensagem que possa ser interpretada contrária a estas Regras ou às normas legais em vigor;
3. não se responsabiliza por qualquer dano supostamente decorrente do uso deste serviço perante usuários ou quaisquer terceiros.
4. se reserva o direito de modificar as regras acima a qualquer momento, a seu exclusivo critério.