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RN é uma questão brasileira

Por Carlos Linneu - Jornalista

O economista Roberto Campos cunhou a expressão “década perdida”. Fazia referência ao período Sarney-Collor, caracterizado pela estagnação econômica e inflação de 80% no último mês sarneyzano.

Um desastre um país perder dez anos na evolução histórica. E aqui no velho Rio Grande do Norte, foram várias as décadas perdidas. Estamos apenas atravessando a última, com fortes perspectivas de prorrogação. Isso porque não estamos preparados, com o terreno semeado para nos livrarmos da espiral que nos leva para o fundo do poço, na comparação com os principais estados do Nordeste.

Desde o governador Cortez Pereira, a burocracia estadual não tem o hábito de planejar, a não ser tímidas iniciativas que resultaram em encadernações espiraladas adormecidas nas prateleiras. Os organismos estatais destinados às formulações desenvolvimentistas praticamente desapareceram.

O governador Garibaldi Filho patrocinou reforma administrativa desastrosa, que no elogiável afã de reduzir custos, acabou por desmontar a Companhia de Desenvolvimento Industrial, a Companhia de Desenvolvimento Mineral e o IDEC, em sua versão antiga.

Seus assessores, improvisados e furiosos, quiseram extinguir cargos, mas a descalibragem das ações, conduzidas por reformadores despreparados para a tarefa, terminaram por atingir, também, as funções. Técnicos competentes e treinados em décadas de conhecimento acumulado, aposentaram-se e não houve renovação a altura. Morte para o doente e não a cura saneadora.

O resultado é o presente: um Estado girando em torno de si mesmo, em desequilíbrio financeiro. Sem uma base econômica dinâmica, as fronteiras do esforço arrecadatório estão bastante próximas, em dependência direta do incremento de preços e tarifas.

Que fazer?

Primeiro, cortar despesas onde seja possível e reconstruir a estrutura estatal dotada das funções de planejamento econômico, instituindo-se meritocracia. Para isso, buscar ajuda em estados mais desenvolvidos, recorrendo a caras consultorias privadas somente em última alternativa.

Segundo, a indispensável participação da iniciativa privada, através da criação de thinks tanks.

Ao lado da população e por óbvios motivos, o empresariado seria o grande beneficiário da trajetória do desenvolvimento econômico. A postura propositiva do segmento poderá instituir sinergia ao processo. Think tanks são organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de interesse, produzindo e difundindo conhecimento sobre assuntos estratégicos, com vistas a influenciar transformações. Em São Paulo há vários exemplos dessas instituições privadas sem fins lucrativos.

E por último, uma variável incontrolável, de natureza política, tão importante quanto os dois tópicos anteriores: a formação de oposições na Assembleia Legislativa, vigilantes, fiscalizatórias e propositivas.

Sem o contencioso parlamentar típico das democracias, os últimos governadores atravessaram os mandatos movidos a programas e ações impregnadas de populismo eleitoral. Navegaram sem os feedbacks corretivos que somente as oposições parlamentares autênticas poderiam proporcionar. A Itália obteve as maiores taxas de crescimento da Europa no período da oposição eurocomunista de Enrico Berlinguer.

O Rio Grande do Norte é mais do que um problema, é uma questão brasileira. Questão estrutural antiga e da qual o governo Robinson Faria é consequência. Herdou um governo já com salários tecnicamente atrasados, pois a então governadora Rosalba Ciarlini utilizava o Funfir para complementar a folha de pessoal. A gov. Rosalba, de sua vez, assumiu o cargo com a receita tributária correspondente a um mês, antecipada pelo governador anterior, Iberê Ferreira de Souza.

Enfim, o problema, ou melhor dizendo, a questão está posta. Um ano, pela frente, de governo Robinson Faria não é pouca coisa. Pelo menos semeaduras são possíveis.

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