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14/09/2014

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Professor americano David Gunkel debate tecnologia, comunicação e ética na UFRN

Por Sergio Vilar

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O professor David J. Gunkel é doutor em Filosofia e Estudos da Mídia, especialista no estudo das Tecnologias da Informação e da Comunicação, com foco em Ética. Em seus estudos, Gunkel une filosofia e tecnologia, chegando a se definir como defensor dos direitos dos robôs. Ele leciona na Northen Illinois University, na cidade americana de Chicago.

Gunkel veio a Natal para participar do seminário Comunicação, Tecnologia e Ética, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), entre os dias 8 e 12 deste mês. O evento atraiu mais de 150 universitários, de diferentes cursos e instituições da capital potiguar.

Nesta entrevista, ele fala sobre a sua área de atuação, conta um pouco sobre drones e a robótica social. Além disso, David Gunkel descreve algumas mudanças pelas quais a sociedade mundial deverá passar ao longo dos próximos anos, como a substituição de livros por dispositivos eletrônicos nas salas de aula e uma convivência cada vez mais próxima com robôs domésticos.

David J. Gunkel é doutor em Filosofia e Estudos da Mídia, especialista no estudo das Tecnologias da Informação e da Comunicação, com foco em Ética.

David J. Gunkel é doutor em Filosofia e Estudos da Mídia, especialista no estudo das Tecnologias da Informação e da Comunicação, com foco em Ética. (foto: Alberto Leandro)

Qual a sua área de atuação?
Eu trabalho principalmente na área de filosofia da tecnologia, tenho diploma em filosofia, mas passo grande parte do tempo trabalhando com computadores e mídia digital. Então, o que eu ensino e pesquiso é a intercessão do pensamento filosófico e as novas tecnologias. Dou cursos que são tanto teóricos, ajudando os estudantes a entender a história e com uma abordagem crítica sobre o entendimento de qual o lugar que a tecnologia ocupa na vida deles, quanto práticos, ensinando webdesign. Em relação à minha pesquisa, eu me envolvo principalmente com questões filosóficas, mais recentemente sobre robôs e inteligência artificial, anteriormente já foi sobre internet, sistemas online e algoritmos.

O que o trouxe a Natal?
Recebi um convite do professor Alex Galeno (professor da UFRN, nos cursos de Ciências Sociais e Comunicação), que eu conheço de um encontro de um grupo de pesquisa. Esta é a segunda vez que venho a Natal. Já tenho um relacionamento de trabalho com Alex Galeno e Eloisa Klein (professora da UFRN), eles souberam que eu iria a São Paulo para outro evento e me convidaram para vir até Natal. Sempre gosto de interagir com estudantes de diferentes locais do mundo, porque as perspectivas são diversas e acredito ser útil para os dois lados do relacionamento. Para eles, por poderem ouvir outra pessoa, que trabalha em um lugar diferente no mundo, com ideias que talvez nunca tenham encontrado em experiências anteriores. Enquanto para mim, é uma maneira de encontrar estudantes cujos conhecimentos são diferentes, trazendo outras perspectivas, perguntas, relacionando o que eu tenho a falar com as próprias vidas.

Qual avaliação faz especificamente dos estudantes de Natal?
São ótimos. As perguntas deles foram realmente muito boas, me fizeram pensar bastante e eu estou realmente impressionado com a sofisticação que vieram com as perguntas, feitas de uma maneira que me pressionaram a pensar e ser claro. Porque eu sei o que eu penso, mas quando alguém fala “eu gosto disso, mas você pode me falar mais sobre o assunto?”, ou quando faz uma pergunta precisa, me obriga a sair da minha zona de conforto e começar a pensar em outras formas de explicar alguma coisa para eles. Então, eu achei que as interações foram realmente impressionantes.

prevejo - e é apenas uma previsão - que na próxima década haverá menos livros nas salas de aulas e mais dispositivos de leitura. (foto: Alberto Leandro)

prevejo – e é apenas uma previsão – que na próxima década haverá menos livros nas salas de aulas e mais dispositivos de leitura. (foto: Alberto Leandro)

Existe a tendência de que, daqui a algum tempo, os dispositivos eletrônicos tomem o lugar dos livros físicos nas salas de aula?
Acredito que sim, pois os livros que estudantes têm que carregar constantemente são pesados e muito caros. Já se pudermos ter apenas um Ipad, por exemplo, poderemos ter e-books, com todo o conteúdo em um aparelho e os alunos não terão que carregar tanta coisa. Além disso, geralmente, os e-books são mais baratos do que os livros impressos e podem ser distribuídos mais facilmente. Então, eu prevejo – e é apenas uma previsão – que na próxima década haverá menos livros nas salas de aulas e mais dispositivos de leitura. Se será um tablet ou computador, isso eu não sei. Mas penso que estamos indo nessa direção.

Como os drones estão sendo inseridos na sociedade?
As forças armadas estão mudando, existem cada vez menos corpos nos campos de batalha e mais drones. Atualmente, com os esforços contra o estado islâmico no Iraque, muito do que está acontecendo é por meio de ataques de drones. As forças armadas gostam disso, por ser uma maneira de lançar o poder militar e ao mesmo tempo proteger soldados. Todas as nações que têm forças armadas estão desenvolvendo drones, em certos níveis, como China, Estados Unidos, Rússia, e isso está mudando as relações dos conflitos.

Quais são as mudanças provocadas pelos drones, nas relações de conflito entre nações?
O que muda é que não é mais soldado encontrando soldado no campo de batalha, hoje é robô encontrando robô, mesmo que estes sejam controlados por humanos em outros lugares no mundo, continua sendo duas máquinas. Então, agora, a grande preocupação é sobre responsabilidade. Não quando as coisas dão certo, mas quando algo dá errado. Já foram amplamente divulgados eventos em que drones mataram civis e os questionamentos passaram a ser: Quando isso ocorre, quem é responsável pelo erro? Se a máquina tomar uma decisão ruim, quem é o responsável? Algumas pessoas consideram que a culpa é da máquina, mas o que isso significa? Como isso pode ser racionalmente pensado, como uma questão moral? Algumas pessoas dizem que se está fora do controle do operador, o drone deveria ser responsabilizado por fazer ou deixar de fazer alguma coisa.

De que maneira a máquina seria responsabilizada?
Essa é a questão. Porque existem alguns algoritmos que estão aprendendo baseados nas informações que estão neles. Se um drone decide “este é o alvo” e solta um míssil, há um sistema tomando decisões sem o controle de um humano, mesmo que o humano esteja assistindo ao que acontece. Vou te dar um exemplo, não de drones, mas de outra coisa: o mercado de ações. Agora temos essas máquinas, que negociam ações e são muito boas nisso, porque trabalham bem rápido. Em 2006 houve uma grande queda no mercado e a queda ocorreu porque dois algoritmos estavam se comunicando, fazendo trocas e eles decidiram tomar decisões que provocaram uma perda de uma quantia enorme. Não havia humanos envolvidos ou no comando e os corretores de ações humanos ficaram olhando, enquanto perdiam dinheiro. Até hoje, ninguém sabe quem foi o responsável por essa perda. Os engenheiros responderam: quando isso acontecer, desconecte a máquina.

Uma das áreas que o senhor estuda é a robótica social. Em que consiste?
A robótica social é meio que o outro lado da moeda dos drones. Estamos desenvolvendo robôs para viver no ambiente doméstico. Isso ocorre essencialmente na Ásia, no Japão em particular, porque a população

Gunkel afirma que o desenvolvimento de robôs para viver no ambiente doméstico gera questões morais. (foto: Alberto Leandro)

Gunkel afirma que o desenvolvimento de robôs para viver no ambiente doméstico gera questões morais. (foto: Alberto Leandro)

japonesa está envelhecendo e lá isso ocorre mais rápido do que nas populações dos Estados Unidos e da Europa. Acontece que não existem jovens suficientes para cuidar dos idosos japoneses, nem há uma quantidade considerável de imigrantes no país. Então, a resposta no Japão para cuidar dos idosos, por não haver trabalhadores disponíveis, é prover robôs para os cuidados com essa faixa-etária. E esses robôs estão sendo concebidos para suprir não apenas as necessidades práticas diárias, como dar banho e remédios, preparar comida ou lembrar de fazer certas tarefas na casa, mas também para companhia.

É principalmente para cuidados com os idosos?
Os idosos muitas vezes vivem sozinhos, a família mora em outro lugar e não pode ir na casa deles frequentemente, então os robôs suprem essa necessidade de companhia. A grande pergunta nesse caso é “à medida que o robô fica mais sociável e passa a ocupar um espaço nas vidas das pessoas, o que acontece quando o vovô começa a gostar do robô?”. Será preciso entender o que fazer quando esse robô deixa de ser apenas uma ferramenta, como a geladeira ou o automóvel, passando a ser como um companheiro, vivendo na casa com o vovô e a vovó.

Seria uma ligação maior do que com um animal de estimação?
Sim, ao menos como a que se cria com um animal de estimação, com uma escala bem alta de sentimento. À medida que desenvolvemos esses robôs, mais questionamentos irão surgindo, algo como: “Podemos simplesmente substituir os robôs, quando quebrarem, se gostamos dele?, Se o robô disser ao vovô para tomar uma medicação duas vezes e o vovô morrer, quem é o responsável pelo erro do robô?, O robô é um agente moral?, O vovô tem alguma responsabilidade com o robô?, Poderemos simplesmente nos desfazer desse robô?”.

Por que esse relacionamento gera tantas questões morais?
Há um estudo recente, apontando que ao ser mostradas imagens de robôs sofrendo maus tratos, as pessoas reagem como se estivessem vendo isso ocorrer com animais ou seres humanos. Elas projetam emoções para os robôs e incorporam todas as aspirações humanas neles. Fica claro que o relacionamento não é igual ao que os humanos têm com outros aparelhos e isso irá mudar nosso panorama social.

O que faremos com essa mudança?
Eu não sei. Para mim, significa que todas essas questões morais sobre responsabilidade precisarão ser confrontadas de uma maneira completamente nova. Isso porque costumávamos pensar que apenas seres humanos podiam ser sociais, ter responsabilidade social, ser agentes morais, mas na medida em que entramos no século XXI vemos que outros entes estão começando a ter um novo status. Vimos isso com o movimento dos Direitos dos Animais e agora, possivelmente, com máquinas. Existe um campo totalmente novo, chamado filosofia robótica, que está explorando esses assuntos, tentando explicar qual forma o nosso mundo deveria ter. Acontece que os engenheiros vão projetar essas coisas e o que está atrasado agora não é a tecnologia, mas a resposta humana, a maneira que lidamos com os aparelhos. Acredito que o trabalho da academia, pensando nesse assunto atualmente, é ajudar os engenheiros a entender o que isso significa para a humanidade, porque pode ter tanto impactos bons quanto impactos ruins. Precisamos negociar o desafio com a oportunidade.

Isso significa que depois da criação dos Direitos dos Animais podemos esperar um movimento pelos Direitos dos Robôs?
Sim, isso está vindo. Na realidade, a minha foto no Twitter sou eu, segurando um cartaz, onde está escrito “Direitos dos Robôs agora”.

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