Esportes

RESISTÊNCIA

Abandonado durante décadas, futebol feminino ressurge em grandes clubes após imposição da CBF

Santos mantém uma equipe feminina há mais de 20 anos

Por Mariana Fraga/Agência do Rádio

6 de março de 2019 | 10:09

Foto: Arquivo/Portal No Ar

A partir deste ano, todos os 20 clubes da série A masculina do Brasileirão vão ter que manter elencos femininos, tanto na categoria de base, como no profissional. A exigência foi estipulada pelo Regulamento de Licenças de clubes da Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol). O documento exige a existência da modalidade feminina em todos os clubes que participam do Campeonato Sul-Americano e da Copa Libertadores em 2019. Como 14 clubes brasileiros se enquadram nesse quesito, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) decidiu expandir a exigência para todas as 20 equipes da série A.

De acordo com o manual da CBF, para atender essa demanda, os clubes poderão manter uma equipe própria, estabelecer um acordo de parceria, firmar uma associação com outro clube ou a outras entidades privadas, governos estaduais ou municipais.

Na vanguarda dessa exigência, o Santos mantém uma equipe feminina há mais de 20 anos. As “Sereias da Vila”, como são conhecidas têm no histórico uma bela sala de troféus. A equipe foi duas vezes campeã da Copa Libertadores, bicampeã da Copa do Brasil e Campeã Brasileira em 2017.

De acordo Alessandro Rodrigues, gerente executivo de futebol feminino do Santos, o investimento na categoria gira em torno de R$ 2,5 milhões por ano, variando de acordo com as competições disputadas.

“A minha defesa e a minha aposta é que o futebol feminino é perfeitamente viável, a partir de uma ideia de patrocínio, a partir de uma ideia de algum tipo de transmissão que envolva remuneração. Através do futebol feminino, talvez, consigamos nos comunicar com o público feminino e isso é cada vez mais importante. E o que eu acho mais fundamental: você sinaliza para centenas de meninas que é possível jogar futebol, que elas podem gostar de futebol e que elas podem jogar futebol”, comenta o gerente.

Criada em 1997, a equipe santista foi mantida pelo clube até o ano de 2011. Os trabalhos foram retomados em 2015. Entre os tradicionais clubes brasileiros, só o Internacional se assemelha ao alvinegro praiano. Os gaúchos fundaram uma equipe feminina em 1984. Ao longo do percurso, no entanto, o time foi descontinuado e retomado algumas vezes. O departamento ressurgiu em definitivo em 2017. As atletas desfrutam da mesma estrutura do profissional masculino com academia, centro médico e moradia.

Em Santa Catarina, a Chapecoense é outro bom exemplo. O feminino é financiado pelo clube desde 2016, fruto de uma parceria com a Associação Desportiva Lourdes Lago, um projeto de uma escola pública de Chapecó. No mesmo ano da fundação, as atletas da chape já disputaram a Copa do Brasil. No entanto, no início de 2017, em razão do acidente aéreo com a equipe masculina, a Chape abriu mão de participar dos campeonatos oficiais com a modalidade feminina. O investimento, porém, não foi interrompido. Em 2018, a Chapecoense retomou as atividades, disputando o Campeonato Catarinense, onde conseguiu a vaga para a Série A2 do Campeonato Brasileiro.

O coordenador técnico do futebol feminino, Amauri Giordan conta que neste ano o investimento da Chape na modalidade gira em torno de R$ 1 milhão, sem contar os valores que já são desembolsados com a manutenção da estrutura de treinamento.

“Temos a categoria sub-15, sub-17 e o adulto hoje no clube. A gente iniciou os trabalhos agora no início de fevereiro com o intuito de bem representar a Chapecoense nas competições. As duas competições principais do ano é o Campeonato Brasileiro sub-18, que está sendo organizado pela CBF. É a primeira vez de uma competição de base. E o Campeonato Brasileiro A2, que começa agora no final do mês de março”, conta Amauri.

Outra equipe que já tem time feminino formado é o Goiás. O diretor de futebol feminino do clube, Zuza Falcão, explica, no entanto, que a apresentação das atletas ainda não foi formalizada publicamente, uma vez que o calendário do esmeraldino só terá início em agosto, já que a equipe não conseguiu vaga para a série B do Campeonato Brasileiro e vai disputar apenas o campeonato estadual.

“Nós dividimos o projeto em um plano de dois anos. Porque o Goiás tem que ser referência em qualquer competição que ele disputar, mas nós também temos muitas expectativas. Eu acho que é de extrema importância que se consolide e se fixe na cabeça da sociedade goiana que existe um time profissional de futebol feminino no Goiás Esporte Clube. Isso é uma maneira de deixar as meninas, as mais novinhas principalmente, que estão em categoria de base, em sonhar em ser jogadoras de futebol”, explica.

Para analisar a situação do futebol feminino nos clubes da série A masculina, a reportagem entrou em contato com a assessoria das 20 equipes que disputarão a competição em 2019. Além de Santos, Inter, Chape e Goiás, as assessorias de outros seis clubes informaram que a implementação de equipes femininas já foi iniciada. São ele, Atlético-MG, Ceará, Corinthians, Flamengo, Grêmio, São Paulo e Cruzeiro. As outras nove equipes da primeira divisão nacional não responderam nossos contatos.

Mesmo com a obrigação estipulada por regulamento, a CBF, procurada pela reportagem, não informou existência de um prazo limite para que os clubes cumpram as novas regras sem que haja o estabelecimento de punição.

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