Cotidiano

SUPERAÇÃO

Eu tinha tudo para dar errado, mas o esporte salvou a minha vida, diz criadora do projeto ‘Vida Corrida’

Neide Santos criou iniciativa para mudar a vida de crianças depois que seu filho foi assassinado, em 2000

Por Redação

29 de abril de 2019 | 12:30

Correr é um ato de amor. Pelo menos é assim que Marineide Santos Silva, 59 anos, constrói o seu legado. Há 20, ela transforma a vida de moradores do Capão Redondo – um dos bairros mais violentos de São Paulo – com o Projeto Vida Corrida. No Parque Santo Dias, Neide, como é conhecida, apresenta o poder do esporte, principalmente para mulheres e crianças. Há 10 anos, o Vida Corrida conta com patrocínio da Nike. Por meio da prática esportiva, a parceria estimula a inclusão social, a saúde física e mental dos participantes, e ainda alimenta sonhos olímpicos.

Desde criança, Neide gosta de movimento. “Quando pequena, eu corria, nadava, subia em árvores, brincava”, conta. Neide nasceu em uma aldeia indígena, em Porto Seguro, Bahia, e teve uma infância pobre. “Quando eu tinha seis anos, meu pai saiu atrás de ouro e não voltou. Minha mãe, então, ficou sozinha com três filhos e nos entregou para adoção. Assim, vim para São Paulo”, lembra. Naquela época, em vez da escola, Neide foi parar dentro de uma oficina de costura. “Não tinha contato com outras crianças, apenas trabalhava”, relata. A oficina foi denunciada e, aos 11 anos, Neide foi adotada por outra família e começou a estudar.

Na escola, educação física era a disciplina preferida de Neide. E foi assim que o esporte entrou em sua vida. “Na prova de revezamento 4 x 100 metros de um campeonato, o professor me colocou no lugar de uma aluna que havia faltado. Foi aí que eu me apaixonei pela corrida”, diz. A competição foi marcante para Neide porque, até então, ela nunca havia ganhado nada. Mas, naquele dia de 1974, ela conquistou uma medalha. “Naquela época não se falava em empoderamento. Mas, hoje, eu sei que, quando eu pendurei aquela medalha, ela me empoderou. Nunca mais parei de correr”, afirma.

Ela, então, começou a sonhar em ser medalhista olímpica. “Tinha condições para isso, mas, três anos depois, minha mãe biológica apareceu com cinco filhos e eu fui ser mãe dos meus irmãos”, explica. Neide parou de estudar, mas continuou correndo nas corridas de rua de São Paulo. “Meu sonho olímpico ficou armazenado em algum lugar da minha memória e o esporte continuou na minha vida”, garante.

Neide Santos sempre teve a vida corrida. Se dividia entre o trabalho, a atividade física e a família. Na década de 1980, aconteceu uma tragédia. Seu marido foi assassinado e ela se viu sozinha com o filho para criar. Na década seguinte, ela se reuniu com as mulheres da comunidade e, juntas, criaram um grupo de corredoras. “As mulheres acordavam de madrugada para treinar comigo e, depois, cada uma seguia a sua vida. A maioria de nós saía para cuidar dos filhos dos outros enquanto as nossas crianças ficavam ao deus-dará”, lembra.

Na época, o filho de Neide, apaixonado por esportes, queria que as crianças da comunidade também se ocupassem da corrida. “Eu disse não para o meu filho porque eu realmente não tinha tempo de ampliar a iniciativa”, lamenta. Dois anos depois, em 2000, ele foi assassinado, aos 21 anos de idade. “Um menino de 14 anos foi assaltá-lo e, no desespero, puxou o gatilho. Perdi meu filho. Aí nasceu o Projeto Vida Corrida, com o propósito de mudar a vida de uma criança”, atesta. Desde então, Neide já mudou a história de várias.

O poder de uma marca

Nos primeiros 10 anos de projeto, Neide foi atrás de apoio de diferentes marcas esportivas, sem sucesso. “As empresas costumam patrocinar apenas atletas de alto rendimento, que dão retorno de mídia”, diz. Em 2009, quando assistia a uma palestra sobre iniciativas de mulheres no esporte, Neide compartilhou sua atuação na comunidade e foi convidada para se inscrever em um prêmio patrocinado pela Nike. “Ganhamos e, na premiação, a Nike decidiu nos apoiar por seis meses”, recorda. A Nike prosseguiu com o apoio e, hoje, o Projeto Vida Corrida tem contrato por tempo indeterminado com a marca. “A Nike, enquanto marca, deu muita visibilidade para o projeto”, vibra.

Por meio de marcas, por exemplo, a propriedade intelectual é capaz de encorajar iniciativas em áreas como o esporte, que contribuem para o desenvolvimento humano. Bruno Teixeira, gerente de Impacto Comunitário da Nike do Brasil, explica que a empresa criou um departamento para monitorar a atuação em comunidades. “A Nike acredita que o esporte tem o poder de mudar o mundo e isso está super vivo no trabalho do Vida Corrida. Crianças ativas são mais saudáveis, felizes e têm mais chances de serem bem-sucedidas. Por isso, nosso trabalho é centrado em ajudá-las nesse sentido”, assegura.

Mulheres de vida corrida

O Vida Corrida nasceu de uma mulher que, com outras mulheres, ganhou ainda mais força. Hoje, além de estimular a prática esportiva, é também um instrumento de empoderamento feminino. Durante muito tempo, na comunidade, Neide era a única mulher que corria. “Qualquer lazer aqui era oferecido por homens e para homens, enquanto as mulheres estavam dentro de casa lavando, passando e cozinhando, ajudadas pelas filhas. Não havia espaço para elas”, conta Neide. Por isso, hoje, 80% dos participantes do Vida Corrida – que oferece aulas de atletismo e treinamento funcional – são meninas e mulheres.

Dayane Jovino começou no Vida Corrida há três anos, como aluna e, hoje, é professora voluntária. Foto: Sarita González

Dayane Jovino, 30, conheceu o Vida Corrida há três anos, por meio de uma amiga. Na época, ela cursava faculdade de Educação Física. Começou no projeto como aluna de atletismo e, depois, seguiu para a turma de multifuncional. Empenhada nas aulas, ela foi convidada por Neide há cerca de um ano para substituir um professor. De aluna, Dayane passou à professora voluntária no projeto.
As aulas são animadas. Ao redor, dezenas de mulheres fazem aulas de aeróbico com abdominal, aeróbico com bastão e funcional, três vezes por semana. Ao todo, são 150 alunas de manhã e 90, à noite. “Estar aqui é importante para mim e para elas. A gente ri e troca uma energia muito grande”, comemora.

No Capão Redondo, em SP, dezenas de mulheres de vida corrida se exercitam no Parque Santo Dias, onde funciona o projeto. Foto: Sarita González

Assim como muitas mães do Vida Corrida, Dayane leva o filho para participar do projeto na turma infantil de atletismo. “Não é fácil conciliar tudo. Minha vida é bem corrida. Sou mãe, esposa e trabalho na pizzaria do meu marido. Mas a gente vive e vai tentando melhorar a vida do próximo”, diz. Ela também comemora a importância do projeto para o filho. “Ele não brinca na rua por causa da violência, mas, aqui, ele se exercita, socializa com outras crianças e aprende a competir”, explica. Ao todo, o Vida Corrida atende 700 moradores do Capão Redondo. Segundo o Instituto Sou da Paz, em 2017, o Capão Redondo ficou em 31º lugar no ranking de violência entre 85 distritos de São Paulo analisados.

Promessa paralímpica

Hoje treinam no Vida Corrida oito jovens que sonham em se tornar atletas paralímpicos e olímpicos. Júlio César Agripino dos Santos, 28, é um dos frutos do projeto. Há oito anos, o agora atleta paralímpico conheceu Neide na estação de metrô do Capão Redondo.

Júlio César sempre gostou de esportes. Aos 17 anos, antes de entrar no projeto, tomou gosto pelo atletismo e começou a participar de corridas de rua. Na época, chegava às 4h45 da manhã à empresa onde trabalhava como auxiliar de serviços gerais para treinar no estacionamento. “Não tinha dinheiro para pagar inscrições de corridas, mas meus colegas me ajudavam”, conta.

Júlio César Agripino dos Santos, ao centro, nas Paralimpíadas Rio 2016: o sonho ganhou força no Projeto Vida Corrida. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB

Já no Vida Corrida, Júlio César foi melhorando o desempenho e começou a vencer competições. Mas o agravamento da deficiência visual começou a atrapalhá-lo. Ele foi diagnosticado com ceratocone ainda quando criança, mas não teve condições de tratar a doença. “Meu pai foi assassinado e minha mãe batalhou para cuidar, sozinha, de mim e dos meus outros quatro irmãos”, explica. Júlio César conta que escondia a deficiência visual. “Tinha vergonha de falar sobre isso com as pessoas”, diz. Enveredou para o esporte paralímpico e, logo no primeiro ano de treino, disputou as Paralimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

O atleta não tem o olho esquerdo e, no direito, conta apenas com a visão periférica. Por causa disso, ele passou a disputar na classe T11 e, na época, entrou em depressão. “Cair de classe foi difícil. Mas percebi que tinha de continuar lutando”, afirma. Hoje, Júlio César treina no Centro Paralímpico Brasileiro (CPB) e em um centro de alto rendimento. Ele vê o presente com gratidão e o futuro com otimismo. “A Neide mudou a minha vida e o meu maior sonho é retribuir. O projeto foi e é o lar que me deu o impulso para me tornar um atleta profissional e sonhar com a medalha paralímpica”, idealiza.

Além de se dedicar ao Vida Corrida, Neide Santos vive de palestras. Depois de sonhar e de tanto lutar, ela transformou uma comunidade. “Acredito no esporte que muda vidas. Eu tinha tudo para dar errado, mas o esporte salvou a minha vida e a de muitas outras pessoas”, finaliza.

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