Cultura

ARTE

Exposição de artista potiguar põe na balança ego e moralidade

Vaidade Seja Dita traz nova linha de trabalho do Potiguar Ery Medeiros

Por Redação

24 de junho de 2019 | 12:10

Foto: Cristiano Félix/Divulgação

Realidade versus moralidade, ego e superego. O equilíbrio dessas duas forças descritas por Sigmund Freud é o pano de fundo da nova série de Ery Medeiros. A exposição “Vaidade Seja Dita” mostra uma nova nuance do trabalho do artista plástico potiguar, que revela ainda um flerte com o movimento Pop art. As obras estão expostas na Galeria Iguales, em Natal, desde sexta-feira, 21.

A principal peça dessa mostra é a releitura de um clássico da Disney. Em “A Branca de Neve e os sete pecados capitais”, Ery posiciona a protagonista, tida como símbolo de pureza, em meio a sete anões caricatos, que interagem com balões inflados, representando os egos. Todas as obras da exposição são pintadas em óleo sobre tela de linho, esticada em chassi de cedro.

Branca de Neve e Os Sete Pecados Capitais

“Tentei ficar mais livre para iniciar essa nova série de trabalho. A arte contemporânea nos impõe muitos desafios. Para um artista que conhece as diferentes linguagens, criar algo novo, abstraindo de toda e qualquer referência do que já foi visto e estudado é algo complexo. E isso se torna ainda mais desafiador quando precisamos, na arte, propor uma leitura a partir do que é belo”, comenta Ery Medeiros.

Administrado conflitos

De todas as teorias freudianas, a do ego é uma das mais famosas. Pelo enfoque psicodinâmico, a busca de novo interesses e experiências nos leva a estruturas que se chocam. Enquanto o ego é parte da realidade calcada na individualização e no egoísmo, o superego atua na personalidade, age no controle dos instintos, supervisionando o cumprimento de regras morais.

Esses conceitos socialmente impostos e a atuação do ego na desestabilização deles é o que se vê em trabalhos como “O Jogo do Ego”, em que um dos dois jogadores de xadrez tem do seu lado do tabuleiro um jogo completo apenas com reis, enquanto o adversário se questiona como teria chances de vencer tendo peças mais vulneráveis.

Já em “Combate do Ego”, toureiro e touro convivem pacificamente. É como se o homem conseguisse, sem o abate, dominar seus instintos animais e o aspecto de violação da lei. Ao ultrapassar a barreira do proibido, o homem se torna mais homem. As touradas, que em outros países simbolizam a superação do impulso sexual através do autocontrole e da disciplina, aqui termina em final feliz.

“É interessante perceber como as referencias globais e do movimento Pop Art se encontram com aspectos da nossa cultura popular. O animal que aparece ao lado do toureiro é a representação do nosso Boi de Reis. E, por esse mesmo viés, o artista consegue transitar por nossa cultura, retratando o Sertão e as ‘pegadas de boi”, comenta Cristiano Félix, curador da exposição.

Para as telas sobre ego, o artista fugiu um pouco das técnicas e explorou uma pintura mais íntima e pessoal. “É um vale tudo! Me desprendi da ideia de me limitar a um estilo”, destaca Ery. Em outros trabalhos, também presentes nesta exposição, ele trouxe um toque moderno aos materiais clássicos. Ao modo “alla prima”, ele não repete a pincelada, desfazendo a tinta a procura de outras nuances.

Sobre o artista

Ery é conhecido especialmente por suas esculturas de personalidades potiguares, mas o que poucos sabem é que a primeira descoberta do seu trabalho foi a pintura. A primeira exposição individual aconteceu em 1997 na Capitania das Artes, em Natal, mas seu currículo traz várias exposições no Brasil e no exterior.

Uma das mais expressivas, a “Atleta e Cores: Brasil – Itália”, reuniu obras de 30 artistas – 15 italianos e 15 brasileiros – exaltando o esporte no ano de olimpíadas no Brasil. Neste projeto, Ery flagrou em sua obra três ciclistas em movimento mediante um estilo de pintar que não privilegia o detalhe, mas o conjunto.

A mostra solo Felizcidade, realizada na Aliança Francesa em Natal (2013), foi apresentada a seguir na Maison de l’Amerique Latine, em Rhône-Alpes, e na Aliança Française, em Lyon, França. Ery também já participou de mostras nos Estados Unidos.

O potiguar, natural de Santa Cruz, transita com desenvoltura entre a pintura e a escultura. Há várias peças de sua autoria em praças públicas e instituições da capital, tais como as de Nivaldo Monte, no Parque da Cidade, do presidente Kennedy, na praça de mesmo nome, de Dinarte Mariz, no Tribunal de Contas do Estado e na Reitoria da UFRN, e de Djalma Maranhão, na Câmara dos Vereadores.

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