IDADE DA RAZÃO TURVA

Por Paulo Afonso Linhares -

Um dos momentos de maior alumbramento literário que experimentei, nos anos 1970, foi a obra “A idade da razão” (em francês: L’âge de raison), de Jean-Paul Sartre, que resume a epopeia da existência humana referenciada à ideia de liberdade. Para Sartre, o existir não tem sentido sem liberdade e faz o ser se abismar na escura dimensão do nada como último refúgio, onde encontraria a liberdade suprema. Complicado? Sem dúvida, mas, compreensível.

Em raciocínio mais singelo, trata-se mesmo da existência humana e a sua irrefreável propensão  a ser livre. Afinal,  “O homem está condenado a ser livre, condenado porque ele não criou a si, e ainda assim é livre. Pois tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável por tudo que faz”, segundo palavras do mesmo Sartre (O ser e o nada, de 1943), escritas num dos piores momentos de sua própria existência e da história de seu país, ocupado este pela máquina de guerra alemã, quando os valores da civilização europeia jaziam sob os escombros da barbárie nazifascista e a única possibilidade da vida era lutar desesperadamente para derrotar esse poderoso inimigo da humanidade: resistir, era a palavra de ordem. A liberdade triunfou, enfim, com muito sangue, suor e lágrimas.

Décadas depois, uma realidade que aponta para cada vez maior precarização da liberdade, em que  o nada se apresenta como possibilidade existencial de ser livre num mundo em bizarras mutações e de razão inapelavelmente turva. Aliás, todo aquele conjunto de valores humanitários emergidos em duzentos anos de Iluminismo ameaça soçobrar na maré irracional das tantas banalizações do mal, como se não bastassem os “progroms”  da Rússia, a abjeta “solução final” (do alemão Endlösung der Judenfrage) dos nazistas, nem os genocídios das populações da Armênia (1915), dos curdos(1986-1989), do Timor Leste (1975-1999), da Bósnia (1992-1995), ou  dos tutsis em Ruanda (1994), além das humilhações e mortes  que permeiam a transposição de milhares de refugiados do norte africano que buscam a Europa culta e rica, cujo único futuro é uma sepultura anônima no Mar Mediterrâneo; nas Américas de falas ibéricas, os sonhos de melhores dias na pátria de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin se esvaem nas barrancas do Rio Grande que separa Estados Unidos da América do México, isto enquanto o “muro” de Donald Trump não for edificado…

Lastimável é que os valores humanitários não tenham acompanhado o vertiginoso desenvolvimento tecnológico e científico do século XX. Ao revés, todos esses avanços, com honrosas exceções, serviram para escravizar mais ainda as pessoas, até mesmo além das aparências. E quando se pensou em civilização encontrou-se a mais pura barbárie, tudo com se a humanidade se resumisse a um jogo mortal de todos contra todos, em que os mais fracos e inadaptados tivessem que sucumbir inelutavelmente ante os mais fortes e adaptáveis. Por isto, nunca as compreensões do ser e das sociedades, nos seus aspectos culturais, econômicos, políticos e jurídicos, foram tão necessárias para a compreensão do que se passa no presente momento histórico.

Por isso não deixa de causar espanto a invectiva do presidente Bolsonaro de que os estudos de Filosofia e de Sociologia (assim mesmo, em maiúsculas) devem ser banidos das universidades brasileiras. O mais difícil é imaginar o que inspiraria tamanha  estultice presidencial. Tudo não passaria de  mera especulação não fosse vir a lume a absurda decisão do capitão Bolsonaro de cortar verticalmente trinta por cento das verbas destinadas às universidades federais brasileiras. Para o multienergúmeno Abraham Weintraub, ministro de Estado da Educação, a motivação governamental seria uma reprimenda pela “balbúrdia” causada pelas universidades mantidas pelo governo federal, aliás, um dos grandes ativos da sociedade brasileira. A nova palavra de ordem que nem Hitler ousou pronunciar algo parecido: destruam-se os templos do saber, as universidades públicas federais do Brasil. Trópicos tristes e amaldiçoados.

A destruição das universidades públicas federais,  ademais de inimaginável em qualquer contexto político-institucional, traduz despropositado e não menos criminoso acinte à produção do conhecimento em vastíssimas áreas científicas e tecnológicas que, em derradeira análise, são  o  supedâneo essencial da civilização brasileira; enfim, a capacidade de produzir soluções em amplos domínios da vida.

Aliás, vive-se no Brasil de agora um momento bizarro da existência, parecido com aquela dimensão paralela retratada nos gibis do Superman editados, aqui, pela Ebal, que era um mundo sem curvas. A última bizarrice foi a frase lapidar do presidente Bolsonaro, que desprestigia em muito a mulher brasileira e, por vias de consequência, a família que ele diz tanto defender: Bolsonaro declarou que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias. Se alguém quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. Enfim, o presidente do Brasil fez irresponsável defesa do turismo sexual. Essa agressão grosseira às mulheres do Brasil, trouxe à lembrança a figura do saudoso Miguel Mossoró que, candidato a prefeito de Natal, em tempos idos, defendeu como um dos itens de sua plataforma eleitoral dar uma “mãozada” nos gringos que aqui viessem fazer turismo sexual com as mulheres potiguares. Obteve uma inusitada montanha de votos, ele que era um sargento da reserva do glorioso Exército brasileiro e que estava anos-luz do capitão Bolsonaro na defesa dos valores da família e, sobretudo, da dignidade das mulheres deste país. Grande Miguel Mossoró e sua santa mãozada!

Destarte, é que essas bobagens remetem, em tudo por tudo, a outro Miguel naquele àquele triste episódio da invasão da vetusta Universidad de Salamanca, na Espanha, pelas hordas bárbaras  do general Francisco Franco, comandadas pelo mórbido general Millán,   que bradavam um estranho “viva a la muerte!” e prontamente repreendidas pelo reitor e filósofo Miguel de Unamuno: “Este é o templo da inteligência e eu sou o seu sumo sacerdote. Vencer não é convencer. Para convencer há que persuadir e para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na luta.” Essas palavras, fortes e desafiadoras, hoje devem ser ditas e lembradas – gritadas até – ao ministro Weintraub e seu insensato chefe Jair, que turvam a razão  e o bom senso. No passaran!

 

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